quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Olhos de ressaca

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe,–para dizer alguma cousa,–que era capaz de os pentear, se quisesse.

domingo, 18 de outubro de 2009

Nosso fim

Nosso fim

Quando vi teu sangue escorrendo,
não socorri teu vulto do lago ígneo,
porque sabia que meu destino era o mesmo.
Se pelo menos nosso amor fosse ebúrneo,
eu estaria para uma assistência correndo.

Mas por que no meu sofrimento, gozaste?
Por que na minha música colocaste sonho?
Sei que até no amor o pecado era presente,
porém nada fizeste contra o imoral
e a minha ilusão dolorosa preservaste.

Porém, meu fim não começou apenas no teu.
Percebamos o perfume do mesmo vazio
para arder a morte, que antes só a mim viveu.

sábado, 17 de outubro de 2009

Minha Eva

Essa é uma poesia que eu fiz com uns 18 anos :

Minha Eva

Minha Eva querida que Deus perdoaria,
se conhecesse o frenesi que provocas,
a essência confiante e eterna que invocas,
e a própria existência que por ti daria.

Paisagem agradável que é tua imagem,
parte do mundo divino que me é tua alma,
dispensam modos frívolos e camuflagem,
erguem direto o coração a tua palma.

Construção de alta torre para o infinito,
como reconhecer o poder deste mito
é a veneração sublime que me causa,
é tê-la em mente e em espírito sem pausa.

Tristeza tivera seu fim na tua chegada
e pudera arder no nosso supremo altar.
Frias cinzas foram levadas pelo mar
e nobre sereia transformada em amada.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Deusa Tanas Deusa Bio

Essa poesia é sobre a vida e sobre a morte. São duas poesias, mas dá pra ler uma terceira lendo as duas ao mesmo tempo :0

Deusa Tanas---------------------- Deusa Bio

Quando o mar cospe a areia ----- Nasce a criança acanhada
e do canto vem as trevas,------- arrastando saudades eternas
Tanas baixa na grande ceia,----- e a ordem é levantada
envenena as raras ervas--------- recomeçando esperanças maternas

Tanas leva fortuna igual-------- A este impiedoso caminhante
À existência de um final-------- surge dúvida secante:
Para que existe morte?---------- Para que existe vida?

Deusa Tanas reina na Terra,----- Para ser sempre temida?
destrói altivez e vaidade------- Para ser sempre amada?
Àquele que beija fatalidade----- Àquele que beija a vida

Deusa Tanas--------------------- Deu sáBio
Deu saTanás--------------------- Deusa Bio

Balada Solitária

Vou mostrar para vocês um poema que fiz com 17 anos. Representa um diálogo entre o eu-lírico e o Ideal. O final é bem subjetivo e poucos entendem a mensagem do final, que seria a morte do Ideal, já que a perfeição nunca existe :

Balada Solitária

Passeando os anos sempre a pensar
se acho aqui meu ideal para amar,
eu morri ao cair em desilusão,
quando acordei da cômoda ilusão.
Porém, a fumaça queimou-me os olhos,
deixando-os mais tristes e congelados.
Se fosse uma desilusão amorosa,
a alma flutuaria esplendorosa.

Ideal, por que não materializa
o seu vulto que no céu enraíza?
Por que a pureza de anjo doirado,
se neste inferno não viver ao meu lado?
Para que ser estática virgem do mar,
se o movimento é amado-estar?
Para que em ser perfeita você insiste,
se nem ao menos aqui você existe?

Mil vezes ser encarnada em serpente,
do que ser uma Eva que não se sente.
Porém, não ser o gavião maldoso,
que no martírio alheio chega ao gozo.
Por que não me traz uma confiança,
ou então pelo menos uma esperança,
para nesta vida poder dizer
que também possuo meu bem-querer.

Venha para este reino de Satã,
onde sua companhia é irmã.
Ou irei eu nesse mundo buscá-la
para com vingança poder matá-la.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Lira muda

Aí vai um dos primeiros poemas que fiz, um pouco de Trovadorismo e Ultra-Romantismo :

Lira muda

As mais belas rosas a vós eu trago
para nesta vida alegrar meu amor.
No opaco copo de scotch me embriago
e esqueço de sepultar a minha dor.

A vós o ingênuo olhar puro, seu amigo,
sem macular o mais belo dos seres.
Só ofegar se morrer o ser comigo
que outrora afundou em vivos dizeres.

Se foi a vós que sinceramente amei
da terra maviosa a todos os mares,
é porque no espírito carreguei
a confiança de vossos olhares.

Hoje, se minha lira não tocar mais
é porque suas cordas enferrujaram
ao sugarem loucas chispas que jogais,
quando meus olhos para vós se elevam.

domingo, 11 de outubro de 2009

A especificidade das cousas

Outro dia estava pensando sobre como tudo nessa vida é tão específico e se não fosse da forma como é, não seria possível. Por exemplo, a densidade da água vai aumentando, conforme vamos reduzindo sua temperatura, porém depois que congela, a densidade da água diminui, fazendo com que o gelo flutue. Dessa forma, quando chega o inverno, os lagos não congelam inteiramente, pois é criada uma camada de gelo que fluta sobre a água e isola o resto do lago, sem deixá-lo congelar e dessa forma matar toda a vida embaixo d`água. Não é fantástico isso?
Nosso sistema imunológico é fantástico também, parece que tudo foi meticulosamente pensado, e se não fosse exatamente assim, não seria possível a nossa existência por segundos.
Onde estou querendo chegar? Que tudo nesse mundo tem que ter uma explicação melhor do que apenas coincidência probabilística da evolução, uma vez que pensar na vida dessa forma é como achar que tudo até hoje foi uma sucessão de evoluções que deram certo? E no caso das formas sem vida, como a água e a luz, que parecem ter sido arquitetadas por um gênio da física.
Portanto, penso que a criação de tudo nesse mundo, da perfeição, da forma como tudo se encaixa, pode ser explicada pela existência de um engenheiro, mais especificamente Deus.